domingo, 19 de outubro de 2014

1920 – Ponta Porã elevada à cidade

Decreto estadual transforma o município fronteiriço em cidade, abrangendo os distritos de Antônio João, Cabeceira do Apa, Lagunita e Patrimônio União. Com sede estabelecida na lombada do planalto de Maracaju, que lhe ameniza a temperatura, emparceirando-lhe as condições climatéricas com as do Paraná, data o seu início dos fins do século XIX, sendo de 10 de abril de 1900 a resolução que lhe reconheceu a existência, criando a paróquia respectiva. 
Feito município a 18 de julho de 1912 e elevado à categoria de comarca por lei de 23 de setembro de 1915, teve por base econômica os ervais, a que deve seu povoamento e os vastos campos onde se desenvolveu a pecuária e, mais recentemente, a produção de grãos, principalmente a soja e o milho.

FONTEEstevão de Mendonça, Datas Mato-grossenses, (2ª edição) Governo de Mato Grosso, Cuiabá, 1973, página 219

Imagem publicada no livro: Um Homem do seu Tempo (2011) de Luiz Alfredo Marques Magalhães. Foto de 1929 da sede da prefeitura localizada na época na Avenida Brasil e Travessa com a rua Baltasar Saldanha.O prédio foi uma das obras da Cia. Mate Larangeira, esses empreendimentos iniciaram em 1927 através de um contrato de pacotes, esse contrato foi realizado na gestão de Heitor Mendes Gonçalves em conjunto com o governo do Estado neste período histórico.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Ponta Porã Linha do Tempo: Memória cultural, causos e lendas da região fronteiriça. Matias tataty.

* Yhulds Giovani Pereira Bueno.

Quem nunca ouviu um causo, uma história bem contada cheia de mistérios quando criança, por aqueles que as vivenciaram ou escutaram de alguém que esteve aqui nesta fronteira em outros tempos já esquecidos, mas ainda vivos na lembrança destes fronteiriços, que hoje são saudosos de outras épocas distintas que ficaram gravadas em sua memória.

Vamos fazer um resgate histórico de um destes causos cercados de mistérios de um personagem que a muito já está esquecido, mas que andou por estas terras há muitas décadas atrás, empreitava trabalho nos ervais da região, conhecido por todos daquele tempo como Matias Tataty nome que pode ter origem tupi guarani (tata’y que significa fumaça de madeira grossa, dura que demora a queimar).

Matias Tataty era homem severo, de poucas palavras e bruto no trabalho, cheio de mistérios e respeitado por assim dizer, pelo fato de muitos dizerem que ele tinha feito um pacto quando jovem com forças ocultas, em troca ele teria os seus pedidos atendidos, se o fato era verdade ou não, quem cresceu escutando as historias do Matias Tataty, diz que ninguém queria pagar para ver, pois conta que em época de colheita onde eram carregadas centenas de sacos de ervas extremamente pesados, do clarear do dia até o sol se por, pois nesses tempos não havia o luxo da luz elétrica na cidade, imagina como era a vida no campo,

Nesse período de colheita é que Matias Tataty mostrava seu poder, fazendo coisas que até o mais céticos dos homens temia e não se atrevia a contestar.

Conta lenda que certa vez após uma colheita abundante de erva, os sacos estavam lotados cheios, esses sacos imensos eram transportados pelos ervateiros um a um até os galpões, para ali ficarem em segurança, protegidos, mas em certo dia, se armou um grande temporal os ervateiros exaustos de tanto levar os sacos de ervas por longa distância, não conseguiriam terminar a tempo e poderiam perder toda a colheita, Matias Tataty observando o que poderia acontecer pediu para os ervateiros seguir a diante, pois o restante da colheita ele iria proteger.

Os ervateiros assustados não esboçaram nenhuma resistência à ordem dada por Matias Tataty, seguiram rumo à sede da fazenda levando o que podiam para ser guardado no galpão, o trabalho era puramente braçal quando muito em certo ponto da caminhada as carretas de boi ajudavam no transporte que era árduo e lento.


Foto divulgação FCMS-Federação da cultura de Mato Grosso do Sul, publicada na revista Cultura MS – Nº 03.  Típico fazendeiro ervateiro do início do século XIX da região de fronteira bebendo tereré ao lado de “pé de erva”.Tereré de Ponta Porã registrado com patrimônio imaterial em 2010. 

O fato segue cercado de mistério, pois quando os ervateiros chegaram ao galpão, se é verdade o fato, o mesmo ficou registrado nos causos contados na região fronteiriça, por aqueles que escutaram de quem viveu e descendeu de moradores antigos desses tempos, que Matias Tataty surrava os sacos de erva com um reio tramado de couro fino, e os mesmo seguiam rumo ao galpão, os ervateiros assustados com os clarões dos raios que cortavam o céu e escutando ao fundo os estalos do chicote de Matias Tataty, observavam que os sacos de ervas se amontoavam um a um dentro do velho galpão, sempre cercado de mistérios, ninguém se atrevia a questionar Matias Tataty nem mesmo os próprios donos dos ervais.

Dentre tantos feitos de Matias Tataty um que chamava atenção, era o fato que nos dias de hoje seria algo para ser realizado pelos melhores ilusionistas, ele tinha o poder de transformar folhas de erva em dinheiro através de uma de suas muitas orações, conta que ele entregava o saco de folha de erva e quando a pessoa abria só enxergava dinheiro e não as folhas.


Estas histórias são causos, lendas de outras épocas onde a fé, religiosidade e as crenças do povo nesses assuntos eram mais respeitadas. 

Pesquisador: Yhulds Giovani Pereira Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor coordenador da Rede Municipal de Educação. Membro da diretoria executiva e do Grupo Xiru do CTG – Querência da Saudade – Ponta Porã – MS.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Ponta Porã Linha do Tempo: Memória histórica e folclórica do cotidiano da fronteira. Os causos e lendas da região. Marco Grande de Ponta Porã e as Três Placas de Aral Moreira.

*Yhulds Giovani Pereira Bueno.

Sempre cercado de mistérios e com um ar sobrenatural, contado através dos tempos, causo é a maneira simples de um povo contar uma história, algo que era feito pelos mais velhos, os anciões em outras épocas distintas as novas gerações, mantendo sempre vivos na memória esses acontecimentos. 

O respeito aos bons costumes e aos  mais velhos era prioridade nesses tempos, pois todos se conheciam nestes tempos.

Desde que o mundo existe, de certa maneira os conflitos e a violência sempre fizeram e continuam a fazer parte do desenvolvimento sociocultural dos povos em geral, não que isso seja certo, longe de se fazer uma apologia a violência, mas infelizmente faz parte do cotidiano da população, não diferente na fronteira os entreveros e as desavenças sempre foram marcas desta região, quando a matança era grande onde nesses tempos ninguém sabia, quem ou como foi somente ouvia falar de algo que também não se sabia ao certo como tudo acontecia, pois o que aparecia eram os cadáveres “defuntos” em lugares já conhecidos da região de fronteira.

Arquivo pessoal de Gene Whitmer: Marco divisório da linha internacional, década de 60.

Em Ponta Porã o famoso “Marco Grande” que serve de ponto de referencia da divisa entre o Brasil e Paraguai, em outros tempos era ponto das famosas desovas de cadáveres “defuntos” que era um ou vários dependendo do ritmo da procura dos serviços dos famosos e temidos homens do terno preto ou “pistoleiros de aluguel”, claro que não se devem admirar tais fatos, mas que aconteciam nesses tempos as famosas trincheiras onde grupos rivais se encontravam e duelavam para ver quem era o poderoso da época, isso acontecia, um fato marcante na memória de alguns remanescentes destes tempos foi um duelo, entre grupos rivais de poder na então região do bairro da granja  onde hoje e o aeroporto, muitos tiros e ricochetes e baixa de ambos os lados, que claro ninguém viu ou ficou sabendo, só ouviu falar, essa era a Ponta Porã de outras épocas onde a  lei era para os mais fortes e os fracos nesses tempos não tinha espaço, claro isso em uma fronteira que hoje já não existe, pois a população que nada tinha haver com o fato seguia seu curso normalmente vivendo e crescendo nesta rica cidade.  

Já quando aconteciam os entreveros acometidos esses pelos quatreros (bandidos destes tempos) ou por pistoleiros da região de fronteira, o ponto de ultima parada do defunto era as “Três Placas” lugar onde poucos em outros tempos se atreviam a passar desacompanhados, por ser um lugar onde muitos corpos eram encontrados diariamente nesse período. 

Segue na lembrança dos populares desta região que há muito tempo fora encontrado 16 corpos em um único dia, sendo oito de cada lado da fronteira, alguns já meio enterrados, outros já nem tanto, algo que chamou atenção da época, pois ninguém sabia ou ficou sabendo de nada, essa é a fronteira de outros tempos, onde o respeito e a valentia andavam de mãos dadas.

Na região tanto nas “Três Placas” como no “Marco Grande” os viajantes ou quem passava por estes locais, visualizavam pessoas que muitas vezes pediam carona, ajuda e depois desapareciam na penumbra da noite. 

Se e verdade ou não fica essa mais uma história da região de fronteira.




Pesquisador e historiador: Yhulds Giovani Pereira Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor coordenar da Rede Municipal de Educação. Membro do Grupo Xiru do CTG – Querência da Saudade – Ponta Porã – MS.

sábado, 4 de outubro de 2014

Ponta Porã Linha do Tempo: Memória histórica e cultural do cotidiano da fronteira. A lenda da prometida “a mulher de branco”.

*Yhulds Giovani Pereira Bueno.

“Quem conta um conto sempre acrescenta ou aumenta um ponto” Proverbio popular.

A vida e seus mistérios, o novo se mistura com o velho, lendas, causos, histórias, fatos do dia a dia, contos que se perpetuam pelos tempos, contados pelos anciões de outras épocas, que a muito já se fazem esquecidas pelas novas gerações, que quase não se importam com essas lendas e os mistérios que a cercam. Vamos resgatar a lenda da “Prometida” mais conhecida como “A mulher de branco”. 




Arquivo postado por Humberto Antunes de Oliveira. Estrada de Ferro Mate Laranjeira. Essa imagem se refere à cidade de Guaira no Paraná. Porém de certa forma está ligada a Ponta Porã devido ao transporte de erva - mate dessa cidade para a Argentina ser feita por essa ferrovia. De Ponta Porã e regiões circunvizinhas à cidade de Guaíra, nessa época, o transporte era feito em pequenos caminhões, de Guaíra até o porto para embarque para a Argentina o transporte era feito nessa ferrovia.

O fato se passou no começo da década de 50, era período de festa, seria comemorada a finalização do prolongamento da estrada de ferro que ligava Bauru (SP) a cidade de Campo Grande (MT), se estendendo a cidade de Maracajú (MT) e finalizando na fronteira na cidade de Ponta Porã (MT), muita festa, muita alegria os fronteiriços em polvorosa, pois a “Maria Fumaça” estava chegando, uns com muito medo do bicho feio que era muito barulho e fumaça, outros corriam e gritavam, seria coisa do outro mundo! Não, era o som do progresso chegando à fronteira. 

Trem inaugural chega a Maracaju com festas em 1944. A linha somente chegava, na época, até a cidade de Maracajú. (Acervo Wanderley Duck).

O terminal ferroviário estava pronto com toda sua imponência, existia também a pousada para os ferroviários que chegavam e tinham que fazer o pernoite, o galpão da oficina para dar a devida manutenção aos “trens”, tal estação servia de encontros para os jovens, de despedidas e recepções a quem partia e chegava de viajem, tudo era cercado de muita festa e desfiles de lindos trajes dos senhores e senhoras da sociedade fronteiriça, era um local de referência a todos a “NOROESTE DO BRASIL”.
Mas como surgiu a lenda da “Mulher de Branco” que aparecia nas redondezas da estação ferroviária. Esse mistério teve inicio no começo da década de 50 quando em certo dia onde estariam presentes autoridades para realizar as inaugurações da estação e a chegada da “Maria Fumaça” trazendo seus passageiros e figuras ilustres da política, como também mercadorias para o comercio local, tudo era cercado de muita festa. 

Foto arquivo Lourdes Aparecida Teixeira: Vista aérea da esplanada da NOB-Noroeste do Brasil, na imagem aparece em destaque à estação ferroviária a casa dos ferroviários, o castelinho que servia de quartel da PM e presidio atrás dele a casa onde morava a senhora Lourdes A. Teixeira, que pertencia a NOB, ao fundo o prédio da primeira empresa de mate solúvel da América “MATEX” ao lado o cemitério Cristo Reis. Uma Ponta Porã pequena no inicio de sua urbanização, década de 60.
Neste período tudo era muito rígido moça não podia andar desacompanhada, as boas maneiras e bons costumes eram regras a ser seguido, o respeito valia, e nestes tempos muitos noivados e casamentos eram arranjados em acordos realizados pelas famílias da região e de outras localidades, muitos conheciam seu futuro marido ou futura esposa, no dia do casório, amor, paixão, não entravam no negocio.
Neste dia conta à lenda que uma família da região fronteiriça levou sua única filha já vestida de noiva para encontrar o seu futuro marido que vinha da cidade de Campo Grande junto com sua comitiva pronta para chegar e realizar o casório, muita expectativa por parte dos pais, menos da noiva que tinha se apaixonado por um rapaz, que a família nem queria por perto por ele ser de pouca posse, mas sem que os pais soubessem a noiva tinha combinado com rapaz de fugir quando a Maria Fumaça “trem” estivesse chegando aproveitando a empolgação de todos.
Nesses tempos a condução era cavalo ou carroça “charrete”, carro só para aqueles de grande posse financeira, a família da noiva tinha ido à estação a cavalo e carroça, segundo conta à lenda os pais apearam do cavalo e amarraram perto do trilho a moça ficou no lombo do cavalo a espera da “Maria Fumaça” trem que trazia seu futuro marido, quando a “Maria fumaça” apontou ao fundo da estação anunciando sua chegada com muito barulho, apitos ensurdecedores e fumaça para todos os lados, muitos correram em campo aberto, outro ficaram parados observando, os cavalos relinchavam se debatendo com a barulheira, outros saiam a galope fugindo do bicho feio, nesse entrevero todo eis que a noiva sumiu no meio da fumaça, conta à lenda que quando tudo acalmou os pais da noiva assustados viram que o cavalo onde estava sua filha sumira, sendo encontrado depois no meio dos trilhos morto todo despedaçado, pois o trem passara por cima, o vestido foi encontrado ensanguentado, a moça que nunca mais fora vista por ninguém da região, uns dizem que ela morreu despedaçada outros que ela fugiu com o seu amor, mas fato que tempos depois deste acontecido, muitos viajantes e fronteiriços começaram a ver a “Mulher de Branco” que acompanhava quem se atrevia a atravessar a estação “NOROESTE DO BRASIL” sozinho para cortar caminho, se é verdade ou não muitos não pagam para ver a tal assombração da “Mulher de Branco” que até os dias de hoje arrepia os mais corajosos da fronteira.
Resgatar causos e lendas de um povo, região uma nação  e manter sempre acessa a chama do imaginário nas novas e futuras gerações, para que tais memórias nunca se apaguem da história.
Pesquisador: Prof. Yhulds Giovani Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor coordenador da Rede Municipal de Educação. 



domingo, 7 de setembro de 2014

Ponta Porã Linha do tempo: Causos e lendas do folclore da fronteira. Hospital Santa Isabel nos tempos de Secundino.

*Yhulds Giovani Pereira Bueno

   Fronteira de tantas histórias de épocas passadas, distintas e cercadas de acontecimentos, mas sempre rodeados fatos incomuns, se comparados aos dias de hoje.

   Causos são contos repassados de pai para filho, de uma geração para outra geração, contado na roda de amigos tomando um bom chimarrão (mate) ou um saboroso tereré, causo é contado com um ar de mistério, mas preservando a verdade da lenda e respeitando sempre a memória cultural das famílias fronteiriças.

   Causo (conto) ou lenda já era utilizada pelos povos antigos de outras eras, para repassar seus conhecimentos suas histórias e assim seguir mantendo sempre viva suas origens e crenças. Vamos abordar um de muitos causos que são contados pelos antigos na região de fronteira.

   Hospital Santa Isabel se localizava onde hoje está instalado o CRE Centro Regional de Especialidades Drº João Kayatt entre os cruzamentos da Rua Guia Lopes e Rua Felisberto Marques. Em outras épocas o Hospital Santa Isabel era o porto seguro daqueles que necessitavam de tratamento médico, mas nem sempre todos conseguiam se curar de suas enfermidades, e óbitos ocorriam neste local, sempre gerando muita historia de aparições e ruídos pelos corredores, isso contado pelo povo em outros tempos.

   De acordo com relatos de quem conviveu escutando esses causos, Secundino era um senhor que trabalhava no Hospital Santa Isabel uma figura um tanto folclórica pelos seus hábitos, atitudes e jeito de falar, dentre suas várias atribuições, uma em especial chamava atenção, o senhor Secundino tinha a responsabilidade de cuidar dos corpos (defuntos), levando os mesmos até a capela mortuária (necrotério) para ser preparado para o sepultamento, neste período histórico essa capela mortuária se localizava ao lado do hospital, a mesma era de madeira, hoje neste local existe uma capela mortuária de material (alvenaria). 

   Para chegar até a capela mortuária tinha que fazer uma grande volta por fora do hospital, como neste tempo pouca iluminação existia, Secundino preferia fazer um caminho mais curto, que era por dentro do hospital, mas no final do corredor existia uma janela e não uma porta de ligação com a capela mortuária, impedindo que algo passasse por ali, mas para Secundino isso não era empecilho, pois ele segundo a história (causo) repassado amarrava os defuntos e passava os mesmo pela janela, isso gerou muitas historias na época, pois quem eventualmente por ali passava e observava tal acontecimento no meio da escuridão, logo imaginava que o defunto estava pulando a janela, não diferente os enfermeiros e médicos que não conheciam as proezas de Secundino, se assustava quando se deparava com tais fatos um tanto fora do comum, mas para os médicos destes tempos como: Dr° José Issa, Drº Nery Azanbuja, Drº Teixeira, Drº José de Simone, e demais médicos da época (in memorian), estes fatos  não era novidade e nem assustadores se tratando de Secundino, figura caricata na sua maneira de se portar.

Foto arquivo família Puléo: Dº Joaquim Teixeira médico renomado em seu tempo na fronteira e sua esposa Felícia Arguelho Teixeira.

   Um causo um tanto atípico dentre tantos chamou atenção, conta história se é verdade a mesma está gravada no imaginário dos populares vivos destes tempos, que certa vez um óbito ocorreu e o corpo que não fora identificado por ninguém, o mesmo seria enterrado como de costume nesses casos como indigente (pessoa não identificada), Secundino era responsável por levar os corpos ao cemitério, esses eram levados de carroça (veículo puxado à tração animal) nesses tempos, como já era tarde e a noite já estava chegando, Secundino saiu às pressas o caminho era longo e cheio de curvas, e além de tudo existia nesses tempos onde hoje se localizam Rua General Ozório, Rua Calógeras e travessa Rua Dep. Aral Moreira, uma imensa erosão (buraco) muito íngreme com um pequeno córrego, chamado nesses tempos de terra de ninguém, era rodeado de mata e poucas casas, esse buraco dificultava a travessia da carroça, como o cemitério Cristo Rei se localiza na Rua Rio Branco e Rua Cosme Damião (o mesmo permanece no mesmo local até os dias de hoje), era muito longe com um grande vassoural (planta nativa da região) e guavira (planta frutífera nativa da região).

  O caminho era longo pela dificuldade naqueles tempos, mas Secundino não queria perder a hora, pois para completar o tempo estava fechando e isso significa chuva na certa, o desespero de Secundino fora tal que quando contornava o buraco bem na encosta no mesmo para atalhar caminho o caixão com defunto dentro caiu e deslizou ladeira a baixo, Secundino em meios a trovoadas, chuvas e os solavancos da carroça nem percebeu que perdera o caixão com defunto, só percebendo o que tinha ocorrido quando chegou ao cemitério, pois lá se encontrava o zelador da época o senhor conhecido de todos como por seu Dindin, que logo foi questionando Secundino onde estava o caixão e o defunto que seria enterrado.

   Secundino voltou ao hospital e relatou o acontecido, como já era noite e estava chovendo o caixão e o defunto só seriam procurados pela manhã, segue causo que até ajuda do quartel (exército) fora solicitado e disponibilizaram alguns soldados para as buscas, populares da época também ajudaram para localizar o caixão.

   Pois não fora fácil achar o defunto fujão no meio da chirca (planta daninha) e da mata, que pelo jeito teimara em ser sepultado como indigente, ficando assim mais um entre tantos causos do Secundino na região, hoje já esquecido pelas décadas e novas gerações, mas sempre vivo na memória do povo de outras épocas saudosas da nossa região de fronteira.

   O resgate de eventos históricos, causos ou lendas é uma forma de manter viva na lembrança momentos que de uma maneira ou outra marcaram uma época.

Pesquisador: Yhulds Giovani Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor da Rede Coordenador Municipal de Educação. Membro do Grupo Xiru do CTG – Querência da Saudade – Ponta Porã – MS.


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Ponta Porã Linha do Tempo: Memória histórica e cultural do cotidiano da fronteira. A Dama do Castelinho.

*Yhulds Giovani Pereira Bueno.

   Quando se fala em histórias, seja ela causo ou lenda que tenha no seu enredo algum mistério, é comum que as pessoas geralmente pensem que tal história seja de fantasma, que tem nela terror, pois para muitos, terror e mistério andam juntos sempre, claro que nem sempre o causo de mistério tem alguma assombração no meio de sua história, mas o assustador é tudo que foge do comum, e de certa forma de arrepios quando o fato é lembrado.

Foto de Albert Braud, 1926 – Publicada no livro um Homem de Seu Tempo, uma biografia de Aral Moreira de Luiz Alfredo M. Magalhães “quartel do corpo de polícia militar”. O mesmo foi utilizado como cadeia por muitos anos.


   O castelinho é um prédio histórico da região fronteiriça, localizado na cidade de Ponta Porã, Mato Grosso do sul, construído na década de 40 para abrigar o governo do novo Território Federal de Ponta Porã, um Território Federal brasileiro em 13 de setembro de 1943, conforme o Decreto-lei n.º 5 812, do governo de Getúlio Vargas.


   O território foi extinto em 18 de SET. de 1946  pela Constituição de 1946, e reincorporado ao então estado de Mato Grosso.

   Atualmente a área do antigo território de Ponta Porã faz parte do estado de Mato Grosso do Sul situado na região de fronteira que faz divisa com a cidade de (Pedro Juan Caballero Capital do Departamento de Amambay situada no país vizinho Paraguay). Vale ressaltar que seu governador durante os três anos de existência do Território de Ponta Porã foi o Militar Ramiro Noronha .

   Com o fim do Território Federal, o castelinho passou a ser utilizado como quartel e (cadeia), para abrigar os prisioneiros da região fronteiriça, que futuramente dependendo do grau de periculosidade eram encaminhados nesses tempos para a Capital Cuiabá ou a cidade de Campo Grande.

   No fim da década de 50 a Linha da férrea da Noroeste do Brasil já estava em pleno funcionamento na região de fronteira, tendo como sua última parada a cidade de Ponta Porã.

   No local uma grande estrutura que compunha toda área da estação ferroviária com: Entrada principal com saguão e bilheteria, plataforma de embarque e desembarque, depósitos de mercadorias, mas afastada outras estruturas que serviam para armazenamentos de grãos entre outras mercadorias.

Foto arquivo Lourdes Aparecida Teixeira: Vista aérea da esplanada da NOB-Noroeste do Brasil, na imagem aparece em destaque à estação ferroviária a casa dos ferroviários, o castelinho que servia de quartel da PM e presidio atrás dele a casa onde morava a senhora Lourdes A. Teixeira, que pertencia a NOB, ao fundo o prédio da primeira empresa de mate solúvel da América “MATEX” ao lado o cemitério Cristo Reis. Uma Ponta Porã pequena no inicio de sua urbanização, década de 60.

   A estrutura de manutenção ou oficina de máquinas se localizava mais ao centro da área destina a estação ferroviária e próximo de tal estrutura se localizava a P.A. (Pernoite e Alimentação), uma espécie de ponto de apoio aos funcionários da Noroeste, que tinham que ficar muitos dias para realizar seus trabalhos, dentro desta P.A. existia uma grande estrutura que era a área do restaurante para os funcionários, onde os mesmos realizavam suas refeições diárias, neste tempo um casal prestava serviço para Noroeste do Brasil, sendo eles responsáveis para preparar as refeições dos empregados dos diversos setores, o rodízio de pessoal era constante e necessário para manter a grande estrutura que era na época a NOB - Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

   Segue relato de moradores da região, que nestes tempos poucas casas existiam por estes lados da cidade conhecida como vila áurea e “Peguaho” que significa em tupi guarani (lugar distante), a rotina seguia normalmente, nesses tempos, mas um acontecimento trágico mudou a rotina da Noroeste de Ponta Porã, no início da década de 60, um assassinato fora do comum estarreceu a fronteira nesses tempos, a mulher que fazia as refeições dos funcionários da Noroeste marata seu marido, com enumeras facadas, como de costume os criminosos eram levados ao castelinho para prestar depoimento e ficar em cárcere (preso), não fora diferente com a mulher, que foi conduzida até o castelinho para prestar depoimento e contar o acontecido.

   Muito se especulou sobre o que levou a tal fatídico e sinistro desfecho, de um relacionamento que para quem observara na época aparentemente de um casal normal, claro que tinham suas diferenças conjugais.
Nos dias e semanas que se passaram, muitos foram os curiosos, que visitavam o castelinho para observar a mulher que ficara em cárcere, e hora ou outra aparecia na grade da janela. Apelidada pela população local como “Dama do castelinho”, fato ficou conhecido pela região fronteiriça, por ser a primeira mulher presa em tal local.

   Segue história do fato, que a mesma ficava horas olhando pela grade da janela, sem esboçar uma única palavra, em certo momento proferia um grito assustador misturado com choro e lamento, por vezes passava mal, e chamava se o médico para realizar atendimento a tal Dama. Remorso, arrependimento, medo, isso somente ela poderia responder.
Imagem divulgação colhida o site: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1646992
Tal estrutura em meados da década de 1940 foi utilizada para alojar o corpo da guarda do Território Federal no Estado Novo do Presidente Getúlio Vargas e o Governador do Território o Militar Coronel Ramiro Noronha, depois por longa data como quartel do Batalhão da polícia Militar e cadeia, atualmente encontra-se em total estado de abandono e sem nenhuma manutenção.

   Anos se passaram e tal história ficou gravada na memória dos moradores mais antigos da região, que acreditam que tal “Dama” habita o castelinho em ruinas, e quem passa em frente de tal estrutura no fim de tarde, pode escutar os lamentos e ver o vulto da dama observando o horizonte pela grade da janela, basta acreditar, mas na dúvida, poucos querem se arriscar a passar em frente da estrutura depois do entardecer.
Admirar fatos históricos, causos e lendas, e respeitar a cultura popular de uma região, a história de um povo é sua maior riqueza.

Pesquisador e historiador: Yhulds Giovani Pereira Bueno. Professor de qualificação profissional, gestão e logística (Programas Estaduais e Federais). Professor da Rede Municipal de Educação. Membro do Grupo Xiru do CTG – Querência da Saudade – Ponta Porã – MS.